Da relação sincera com o aluno: como usar o livro em sala de aula.



Regiane Santos Cabral de Paiva
Professora de língua e literatura 
espanhola da UERN.

Pensar no processo ensino-aprendizagem por meio da literatura é permitir que o aluno conheça a si mesmo e o mundo; que reflita, que questione, que interaja e que aguce o seu senso crítico. “A literatura nos diz o que somos e nos incentiva a desejar e a expressar o mundo por nós mesmos.” [1]. É neste espaço, muitas vezes ignorado, que se pode discutir de tudo um pouco: cultura, história, política, sociedade, ética, religião, ciências e tantas outras questões que povoam o nosso contexto. Por essa razão, é que me permito neste prefácio tratar deste livro e de algumas questões metodológicas para o trabalho com a leitura literária.
 “Da amizade sincera de um urubu e outras crônicas”, é essencialmente um lugar de possibilidades. E quando o digo, não me refiro ao trabalho específico com a língua portuguesa, já que a literatura, tomando o nível das crônicas aqui expostas, nos permite dialogar com todas as disciplinas do Ensino fundamental II, basta escolher a crônica levando em conta os objetivos didáticos exigidos para cada série.
O importante nesta leitura é perceber que a crônica nada mais é do que recortes que o autor faz do seu cotidiano ou de suas lembranças remotas: “Ainda alcanço meus olhos pequenos se afastando na carroceria de um carro em busca da rua onde estava o meu futuro, este, cheio de recordações.” (Da Saudade). Neste sentido, a cada crônica nos é permitido fazer uma aproximação do universo do autor ao infinito particular de nossos alunos.
Por meio destas crônicas, por exemplo, a temática que ganha mais visibilidade diz respeito às relações humanas, que atente a um dos pontos propostos pelos PCNs (Parâmetros Curriculares Nacionais) dedicados ao Ensino Fundamental que é: desenvolver o conhecimento ajustado de si mesmo e o sentimento de confiança em suas capacidades afetiva, física, cognitiva, ética, estética, de inter-relação pessoal e de inserção social, para agir com perseverança na busca de conhecimento e no exercício da cidadania. No entanto, outras questões são tratadas neste livro de crônicas, como, por exemplo, a questão político-social (Numa cidadezinha; Margaridas); valores (Apagão; Da amizade sincera de um urubu; Do estrangeiro; Milionário por um dia; Partida;); gênero (Como se perder dentro de uma bolsa; Você é mulher); costumes (As noites de São João; Vento caído); religiosidade (Café com biscoito); cadeia alimentar/ humor (Dos ratos, baratas e formigas); esporte (O sonho de Macalé); vida x morte (Sônia e os desencontros) entre outros.
Apesar do leque de possibilidades a ser explorados por meio das crônicas, como educadores precisamos estar atentos ao que Paulo Freire propõe: “A leitura do mundo precede a leitura da palavra”[2]. Neste sentido, não podemos simplesmente começar a leitura do texto literário pelo próprio texto. É preciso explorar o conhecimento prévio destes alunos antes de mergulharmos nas letras literárias; é preciso que proporcionemos a interação deste conhecimento para preparar nosso aluno para a leitura da palavra, assim ele não irá tão desnudo para o texto e se sentirá mais familiarizado à medida que avance na leitura. Rildo Cosson nos orienta que antes da leitura, precisamos atentar para a antecipação, que diz respeito às operações que o leitor realiza (estimulado pelo professor) antes de adentrar no texto. Em seguida, vem o processo de decifração, que é o momento em que entramos no texto através das letras e das palavras. Por último, devemos orientar a interpretação, cujo sentido diz respeito às relações estabelecidas pelo leitor quando processa o texto. Não podemos ignorar o fator principal que promove uma leitura literária confortável: a motivação. Esta motivação, a meu ver, passa por dois caminhos, o do professor, que precisa se sentir motivado pela própria leitura; e a da pré-leitura que seria o momento de proporcionar esta motivação instigando o desejo de ler em nossos alunos por meio de alguma operacionalização. Neste caso, a motivação estaria relacionada aos laços estreitos que podem ser estabelecidos com o texto antes de lê-lo. Além disso, é vendo que somos apaixonados pelo ato de ler, que nossos alunos sentirão a vontade de provar do gosto que a leitura tem.


[1] COSSON, Rildo. Letramento literário- teoria e prática. São Paulo: Contexto, 2009.
[2] FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler. 51 ed. São Paulo: Cortez, 2011

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